T2 E7 Recaídas não significam fracasso. Elas fazem parte da mudança.
Ao longo desta série, falamos sobre pensamentos automáticos, crenças, estratégias de proteção, mudanças de comportamento e sobre como a psicoterapia pode ampliar a liberdade de escolha.
Existe, porém, um aspecto importante que costuma gerar muita frustração: a expectativa de que, depois de compreender tudo isso, a mudança aconteça de forma contínua e sem dificuldades.
Na prática, raramente é assim.
É comum que, em algum momento, antigos padrões voltem a aparecer. A ansiedade pode aumentar diante de uma situação difícil. A autocrítica pode falar mais alto novamente. Comportamentos que pareciam superados podem reaparecer.
Quando isso acontece, muitas pessoas concluem que "voltaram à estaca zero".
Mas será que voltaram mesmo?
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, compreendemos que aprender uma nova forma de lidar com as próprias emoções e pensamentos é um processo. E todo processo envolve avanços, desafios e momentos em que antigos hábitos parecem mais familiares.
A diferença é que, depois de algum tempo de psicoterapia, a pessoa costuma perceber esses movimentos com mais clareza.
Ela identifica o que está acontecendo mais cedo.
Questiona pensamentos que antes aceitava como verdades.
Reconhece emoções sem precisar agir impulsivamente.
Essas mudanças podem parecer pequenas, mas representam uma transformação importante: o sofrimento deixa de conduzir automaticamente as escolhas.
Mudar não significa nunca mais sentir medo, tristeza ou insegurança.
Significa desenvolver recursos para responder a essas experiências de uma maneira diferente.
Talvez essa seja uma das maiores contribuições da psicoterapia.
Não eliminar as dificuldades da vida, mas ajudar a construir uma relação mais consciente, flexível e respeitosa consigo mesmo.
Ao encerrarmos este primeiro ciclo de reflexões, fica um convite.
Se, em algum momento, você percebeu que esses textos dialogaram com a sua própria história, talvez isso não seja um sinal de fraqueza.
Pode ser apenas um convite para olhar para si mesmo com mais curiosidade e menos julgamento.
Porque a mudança não acontece quando deixamos de ser humanos.
Ela começa quando aprendemos a nos relacionar de forma diferente com aquilo que sentimos, pensamos e vivemos.
Nos próximos textos, vamos explorar temas presentes no cotidiano de muitas pessoas, como ansiedade, perfeccionismo, procrastinação, autoestima, burnout e relacionamentos, sempre sob a perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental.
Felipe Sobral
Psicólogo Clínico | CRP 06/93069